sábado, 24 de maio de 2008

PRENÚNCIO DAS CHUVAS


   














                                                 
                         Naquele esturricado sertão nordestino a situação era mesmo de muita tristeza. Já havia passado metade do que seria o período das águas, e nada de chuva! Plantar, naquelas condições, era só um desperdiçar de sementes. A fome se fazia presente vitimando, principalmente, os mais fracos e necessitados. O povo rezava e entoava cânticos rogando por reparação divina, pois acreditava tratar-se de um castigo dos Céus.
Foi neste cenário que meu pai decidiu que íamos à Serra da Jurema, um lugar distante dali, mas um dos poucos na redondeza onde ainda era possível tirar mel de abelhas nativas.
Saímos de casa cedo, ainda no turvo da madrugada, andando a pé por dentro da mata e quando já era meio dia, o velho parou e ficou observando aquele Céu azul, sem uma nuvem sequer! Eu também parei e olhei, procurando o que tanto lhe prendia a atenção. Então, percebi que se tratava de um redemoinho de urubus plainando nas correntes de ar. Ele, olhou, olhou... e ficou por um bom tempo calado. De repente, olhou-me como se precisasse me dizer algo.
Reflexivo, ele observou também as poucas moitas que ainda teimavam em permanecer verdes, e delas voavam assustadas pombas-rola que por ali se abrigavam do Sol escaldante. Mas foi logo adiante que nos deparamos com a mais enigmática cena, em cima de uma grande árvore algo se mexia, pois, caíam fragmentos de cascas em nossas cabeças. Ao paramos ali debaixo, protegendo os olhos com a aba do chapéu, o velho olhou para cima, contra o Sol e, para nosso espanto, caíram do alto daquele arvoredo duas lagartixas, uma agarrada ao rabo da outra. Aquilo para mim foi apenas divertido, mas meu pai mudou de feição, abraçou-me num gesto de grande alegria e, depois, rumamos para casa.
Eu, na época, com meus dez anos de idade, fiquei bastante intrigado com aquilo tudo e lhe perguntei cheio de curiosidade: — Por que estamos voltando? — Foi um aviso, meu filho. Coisa de Deus! — Disse, para depois me ordenar a passar por um lugarejo chamado São José, e avisar a alguns trabalhadores diaristas que no dia seguinte, logo cedo, comparecessem lá em casa para trabalharem a plantação.
Para surpresa minha e felicidade geral, já na boca da noite, começou relampejar e o dia seguinte amanheceu debaixo de muita chuva.
Oh, Deus! Bem-diz o sertanejo: — Chuva, mãe nossa! Essa tá fina, manda mais grossa.

Autor: PedrO MonteirO

O LOBISOMEM E AS MAZELAS HUMANAS!


















Naquele lugarejo simples, com uma única rua e mais ou menos trinta casas, o assunto era um só, a maldição.
Era um período de forte estiagem, com isso, o povo se ajuntava e não falava de outra coisa a não ser do lobisomem. Uma unanimidade! Aquela cachorrada que passava latindo quase todas as noites, era mesmo denunciando a presença do bicho. Quando caía a tarde, era grande a preocupação. Muitos marcavam cruzes ou estrelas de seis pontas nas portas, colocavam agulhas virgens nos bolsos, entre outros amuletos, para espantar aquela maldição. O medo era manifesto. Alguns falavam baixinho, como se ele estivesse ouvindo. Mas tinha os que diziam temer só pelas crianças que ainda não haviam recebido o batismo, e ali eram, pelo menos, seis.
Era lobisomem e ponto! Especulações, só quanto à origem do bicho. O dono da venda disse já tê-lo visto descendo a serra e que por certo não era dali. Um freguês comentou — Só pode ser coisa daquele casal lá do pé da serra, dizem até que o homem perdeu um pedaço da orelha esquerda num acidente, sabe-se lá como! Não deve mesmo ser boa abelha. — Disse. O referido casal morava ali havia apenas dois anos e não tinha aderido completamente aos costumes da comunidade, plantava vegetais e criava aves e animais, apenas o suficiente para se nutrir e o homem quase não aparecia na feira de trocas, o que aguçava mais e mais a curiosidade de todos.
E o burburinho não parava. O marchante afirmou ter peitado o bicho de frente na passagem do riacho e até lhe dado um golpe com sua peixeira; gabava-se. O barbeiro confirmou o feito, lembrando que o homem do pé da serra tivera o tal acidente na orelha naquele mesmo período e que devia ser ele mesmo o bicho. Com isso, a manicure tagarelou — É vero! Vai ver que nem casados são. A parteira acrescentou — Arre, nem filhos têm, vai saber o porquê!
Os demais moradores, só de ouvidos, ficavam cada vez mais firmes em suas suspeitas, o que tornava insuportável para aquele homem, tamanha discriminação; até mudavam de calçada quando o encontravam. Foi aí que não aguentando mais o ofensivo falatório, ele tomou uma atitude. Afiou uma grande faca e ao anoitecer, saiu à procura do bicho. Ao sair de casa com a faca em punho, sua mulher ficou na porta olhando até que ele sumiu na curva do caminho. Um tempo depois, lá vem ele cabisbaixo, com ar de tristeza, e então, a mulher lhe perguntou: — O que aconteceu, homem? — Nem… Nem… Nem… — Diz logo, pela santa Virgem Maria! — Nem, nem te conto mulher! — Fala logo, homem, pelo amor de Deus! — Foi então que o homem contou: — Mulher, quando entrei na parte mais escura do caminho, dentro do riacho, de repente, apareceu-me um bicho graúdo pulando e veio com as patas dianteiras levantadas pra cima de mim…, era a nossa cachorra. — Valha-me, Nossa Senhora! E tu tocaste a faca nela; não foi, homem?... — Mas que nada, mulher, fedeu..., dei foi um grito muito feio!
Ocorre que a cachorra do casal, uma mestiça grande, de cor preta no dorso e marrom na barriga, estava no cio; até aí tudo bem, não fosse o fato de ela atrair uma cachorrada danada, trazendo à luz, mazelas, caprichos e outras fragilidades humanas.