quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A LENDA DO CABEÇA DE CUIA

Apresentação

O Cabeça de Cuia, assombração que habita sob os leitos dos rios Parnaíba e Poti, no Piauí, chamou, desde cedo, a atenção dos folcloristas, a começar pelo baiano Alfredo do Vale Cabral, que assim o descreve: “É alto, magro, de grande cabelo que lhe cai pela testa e quando nada o sacode, faz suas excursões na enchente do rio e poucas vezes durante a seca. Come de 7 em 7 anos uma moça chamada Maria; às vezes porém devora os meninos quando nadam no rio, e as mães proíbem que seus filhos aí se banhem”.  (Achegas ao estudo do folclore brasileiro, 1884). A penitência, nascida de uma praga da mãe, duraria 49 anos. Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos brasileiros (1948), atribui à lenda uma origem branca. O episódio da maldição materna aparece em lendas semelhantes, de visível cariz religioso, a exemplo do Corpo-seco, que assombra, sem descanso, o interior paulista.
Às observações dos mestres do Folclore é preciso acrescentar, porém, uma hipótese. O formato de cuia, símbolo da maldição, é o mesmo da Lua. O número 7, que, segundo Câmara Cascudo, “a Cabala da Babilônia julgava misterioso e sinistro”, remete aos dias da semana e aos ciclos lunares. As mais recentes pesquisas, como a feita pelo autor deste folheto, Pedro Monteiro, destoam em parte das informações registradas desde o século XIX. Quatro virgens já teriam sido devoradas pelo monstro, o que indica um ciclo completo da Lua (o Cabeça de Cuia só ataca à noite). A ligação da Lua aos ciclos da água é mais uma informação arcaica diluída no mito. O número total de virgens remete ao Setestrelo, o agrupamento de estrelas que os gregos chamavam Plêiades, filhas de Atlas e Pleione. Formam a cauda da constelação de Touro, e a sua posição no céu se explica pela perseguição a elas infligida pelo caçador Órion. A carne touro é a alimentação do jovem Crispim, antes da metamorfose, e é com um osso corredor, parte do fêmur, que ele mata a mãe. É possível, portanto, que a lenda do Cabeça de Cuia derive de um mito sideral (o de Órion perseguindo as Plêiades), fundido e refundido através dos tempos, que encontrou no Piauí, estado de grande tradição na pastorícia, um reflexo poderoso nas águas de seus mais importantes rios.

                                                                                                Marco Haurélio

Estrofes inicias:                                                      

Eu peço vossa atenção
Aos versos que narro aqui,
São ricas oralidades
Num conto que recolhi
Junto ao povo ribeirinho
Das terras do Piauí.

Nas margens do Parnaíba,
Rio de rara beleza,
Sua paisagem revela
Encantos da natureza,
Na voz e crença do povo
O mito vira certeza.

Poti, outro grande rio,
De leito espetacular,
Tem correnteza serena
Com o dom de desnudar
Boa parte dos mistérios
Da história que vou contar.

Há no encontro dessas águas,
Além do deslumbramento,
Na foz desses dois gigantes
Vê-se com estranhamento,
Um monstro representado
Através de um monumento.

A arte do monumento
Retrata o jovem Crispim
Que a mãe amaldiçoou
Por um presságio ruim,
Como Cabeça de Cuia,
Foi este seu triste fim.

Diz a lenda que Crispim,
Depois que seu pai morreu,
Morava só com a mãe,
Da pesca sobreviveu,
Pois era o ofício do pai
E o único que ele aprendeu.

(...)

Suas últimas palavras
Ela proferiu assim:
— Por agir de forma rude,
Sem piedade de mim,
O seu futuro terá
A maldição como fim!

Como era já meio-dia,
Os anjos disseram amém!
Uma peitica cantou,
Logo em seguida um vem-vem...
Depois um rasga-mortalha
Marcou presença também.

Com o seu trinar sombrio
Um vento forte adentrou
Através de uma janela
E um mau-agouro lançou,
Até o seu santo de guarda
Caiu no chão e quebrou.

Contato com o autor:
(11) 99135-1919 - tim
@pedrocordel

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