PRENÚNCIO DAS CHUVAS


   














                                                 
                         Naquele esturricado sertão nordestino a situação era mesmo de muita tristeza. Já havia passado metade do que seria o período das águas, e nada de chuva! Plantar, naquelas condições, era só um desperdiçar de sementes. A fome se fazia presente vitimando, principalmente, os mais fracos e necessitados. O povo rezava e entoava cânticos rogando por reparação divina, pois acreditava tratar-se de um castigo dos Céus.
Foi neste cenário que meu pai decidiu que íamos à Serra da Jurema, um lugar distante dali, mas um dos poucos na redondeza onde ainda era possível tirar mel de abelhas nativas.
Saímos de casa cedo, ainda no turvo da madrugada, andando a pé por dentro da mata e quando já era meio dia, o velho parou e ficou observando aquele Céu azul, sem uma nuvem sequer! Eu também parei e olhei, procurando o que tanto lhe prendia a atenção. Então, percebi que se tratava de um redemoinho de urubus plainando nas correntes de ar. Ele, olhou, olhou... e ficou por um bom tempo calado. De repente, olhou-me como se precisasse me dizer algo.
Reflexivo, ele observou também as poucas moitas que ainda teimavam em permanecer verdes, e delas voavam assustadas pombas-rola que por ali se abrigavam do Sol escaldante. Mas foi logo adiante que nos deparamos com a mais enigmática cena, em cima de uma grande árvore algo se mexia, pois, caíam fragmentos de cascas em nossas cabeças. Ao pararmos ali debaixo, protegendo os olhos com a aba do chapéu, o velho olhou para cima, contra o Sol e, para nosso espanto, caíram do alto daquele arvoredo duas lagartixas, uma agarrada ao rabo da outra. Aquilo para mim foi apenas divertido, mas meu pai mudou de feição, abraçou-me num gesto de grande alegria e, depois, rumamos para casa.
Eu, na época, com meus dez anos de idade, fiquei bastante intrigado com aquilo tudo e lhe perguntei cheio de curiosidade: — Por que estamos voltando? — Foi um aviso, meu filho. Coisa de Deus! — Disse, para depois me ordenar a passar por um lugarejo chamado São José, e avisar a alguns trabalhadores diaristas que no dia seguinte, logo cedo, comparecessem lá em casa para trabalharem a plantação.
Para surpresa minha e felicidade geral, já na boca da noite, começou relampejar e o dia seguinte amanheceu debaixo de muita chuva.
Oh, Deus! Bem-diz o sertanejo: — Chuva, mãe nossa! Essa tá fina, manda mais grossa.

Autor: PedrO MonteirO

Comentários

Pedro Monteiro disse…
Minha fonte de inspiração foi à convivência com a realidade da estiagem, cruel para o sertanejo pobre.
Porém, fico pensando na alegria daquelas manhãs lá em casa.
O que dizer do "canto" da enxada na pedra de amolar, embalada pelo falatório dos "cabras" trabalhadores afobados para começarem a lida? E o cheiro do café perfumando aquela confraternização? A troca de sementes? Os combinados para troca de dias de serviço?
Enfim, um belo adjunto.

AlinhavoS de PedrO MonteirO

A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS, VERSÃO EM CORDEL (Coleção clássicos em cordel).

SÃO PAULO EM CORDEL

JOÃO GRILO, UM PRESEPEIRO NO PALÁCIO